Enquanto o tempo respira,
Insufla-se o mundo de caos
A poeira tinge as ruas e as almas
Há lama nas calçadas
Cinzas de hipocrisia dançando no ar
Enquanto o tempo respira,
Insufla-se a TV de noticiários
“Vísceras das vítimas cheiram mal”
“Intolerância metralha os que buscam igualdade”
Mortalhas para vestir os desfechos do jornal
E inquietude para quem deseja calma
A violência não muda de canal e nos invade
Já não há portas nas casas
A vida vira vitrine e nós, manequins
Verdadeiros fantoches manipulados
A moda muda antes de a fome passar
E as faces tornam-se cada vez mais magras
Covas nos rostos e nos quintais
Corpos que andam, outros que se escondem
Ou são escondidos
Cadáveres mortos e vivos
Sepultados dentro e fora de nós
E haja negrume para encobrir tanta maldade!
E haja estrumo para soterrar tantos bandidos!
Enquanto se espera uma camada de cal,
Enquanto se espera uma camada de paz,
Enquanto se espera o branco,
A vista se turva
A vista se encurta
Enquanto se assiste o Fantástico
Show de tudo o que se tornou banal
E quando o domingo finalmente acaba,
Dorme-se na espera de uma nova segunda
Sonha-se na espreita de um novo mundo
Estica-se o corpo sobre a cama e sobre o caos
Enquanto o tempo respira
(E não para de respirar!)
Morremos aos poucos,
Sem ar e sem rumo
O que fazer do que foi feito?
Desligar?
terça-feira, 14 de setembro de 2010
segunda-feira, 15 de março de 2010
APELO
Leitores,
Depois de muito sofrer e refletir, resolvi agir. Pode parecer pouco, porém, preferível um pequeno passo à inércia.
Escrevi esta carta - que segue nas linhas vindouras - ao Ministério Público Federal de São Paulo para que alguma providência seja tomada em combate ao preconceito claramente propagado pela Rede GLOBO.
Quem se identificar com a relevância do tema, por favor, faça o mesmo: www.prr3.mpf.gov.br, em “Acessibilidade” e “Contatos”.
"APELO
Confesso que nunca havia assistido a um Big Brother em toda a minha vida. Em verdade, não gosto e raramente assisto televisão. Motivos à parte – que, do meu ponto de vista, são tão óbvios quanto numerosos – resolvi assistir a este BBB10. Resultado: longe de me proporcionar divertimento, tem me causado mal-estar, angústia e revolta. É impressionante o descompromisso da GLOBO com qualquer valor! Se antes eu desconfiava, agora tenho a mais pura certeza: a emissora visa tão somente à audiência e ao lucro, ainda que, para tanto, tenha que afrontar o Direito e levar ao ar os maiores absurdos, disseminando, inclusive, de forma odiosa e clara, o preconceito.
Eu sou lésbica e me dói ver o resultado dessa ganância descompromissada da GLOBO, o reflexo imediato e patente que essa irresponsabilidade causa na população, sobretudo na parcela menos provida de senso crítico e de estudo (que é bem ampla, diga-se de passagem, nesse nosso país cujos índices de analfabetismo nem precisam ser relembrados).
Nós, os gays, já sofremos preconceito demais! Somos vítimas de um constante e antijurídico assédio social! A todo instante, de forma direta ou indireta, nos é cobrado – inclusive dentro de nossas famílias e de nossas casas, o que é mais absurdo! – que não demonstremos o afeto que possuímos por nossos pares! É-nos exigido que passemos despercebidos, fingindo masculinidade ou feminilidade, a depender do caso! É-nos cobrado que tenhamos que olhar para o lado antes de direcionar um olhar de amor aos nossos companheiros! Enfim, já somos pressionados demais para não sermos quem somos, em plenitude de direitos, em que pese pagarmos os mesmos impostos! Sinceramente, não precisávamos que ninguém – muito menos uma pessoa jurídica com o poder da GLOBO – fortalecesse esse odioso preconceito! Pensei eu – munida dos últimos resquícios de inocência – que a emissora havia colocado três homossexuais assumidos com o objetivo – louvável – de reduzir o preconceito, a ignorância sobre o tema, trazendo esclarecimentos, deixando de mistificar o assunto, desvinculando homossexualidade de promiscuidade, enfim, propagando o respeito, mas, boquiaberta, tenho assistido o inverso e o pior: em horário nobre!
Outro dia, Pedro Bial virou-se para Serginho (que é um dos gays) e, sem qualquer rodeio, indagou: você é ativo ou passivo? E eu, agora, pergunto: onde está o respeito à dignidade? Quem disse que ser gay dá o direito de devassar a intimidade de alguém desta forma? Que tipo de orientação Pedro Bial tem recebido da GLOBO para perguntar isto a um homossexual e não perguntar a um heterossexual se ele gosta mais de sexo anal, oral ou “papai-mamãe”? E não venham me dizer que quem “está na chuva é para se molhar”, que vai para o programa quem quer e está disposto a tudo! Ainda que isto seja fato, não contesto a postura do participante em responder, tampouco em participar. Estou aqui para contestar a postura do apresentador do programa e, consequentemente, da emissora! O que se deseja quando se expõe alguém desta forma? Preservar o respeito a esta pessoa e à sua orientação sexual é que não é! Não é a toa que tenho ouvido relatos de que, alguns grupos, ao atacarem verbal e mesmo fisicamente um homossexual na rua, têm gritado “Gang Dourada”, fazendo clara menção a Marcelo Dourado (que é homofóbico patente, sem meias palavras!)!
Restam, agora, as derradeiras perguntas: ninguém vai fazer nada? Onde andam os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana e da igualdade? Onde anda a máxima de Kant que define a dignidade – no âmbito jurídico e filosófico – como o dever de tratar o ser humano como um fim em si mesmo, jamais como um meio para a satisfação dos interesses de outros, muito menos quando este outro é, “singelamente”, a Rede GLOBO?
Escrevi uma monografia entitulada “Homossexualidade: direito ou defeito?”. No trabalho, trato do tema, primeiro, no âmbito extrajurídico – valendo-me da História, Medicina, Genética, Psicologia e Psicanálise – para, depois, passar ao âmbito jurídico, mais especificamente o Constitucional. Para tanto, analiso 5 (cinco) princípios constitucionais. Os 3 (três) primeiros – igualdade, liberdade e dignidade da pessoa humana – de caráter geral e 2 (dois) outros – pluralidade das entidades familiares e afetividade – específicos do Direito de Família. Paralelamente à análise dos significados e conteúdos dos princípios abordados, busco vislumbrar - e vislumbro! - a homossexualidade como um direito, verificando que ela encontra respaldo constitucional. Feita essa verificação, parto do mundo constitucional para o real, numa tentativa de comparar o juridicamente idealizado com o humanamente concretizado. Desta feita, observo que o preconceito ainda inviabiliza a concretização da justiça quando o tema é homossexualidade. Por fim, dou a resposta à pergunta, título do referido trabalho. Homossexualidade: direito ou defeito? E a resposta mostra-se óbvia: DIREITO! Chego a esta conclusão com base na Ciência e no Direito, longe dos "achismos" e dos argumentos pseudojurídicos, que só encontram terreno fértil na ignorância e na falta de capacidade de "amar o próximo como a si mesmo". Talvez sejam estes os fundamentos que precisam ser expostos através da mídia, do Poder Judiciário, do Ministério Público Federal, enfim, de qualquer um que se disponha a fazer valer a Justiça!
Enfim, só queria registrar minha indignação, minha preocupação e pedir, por favor, que o Ministério Público Federal tome alguma providência jurídica, rápida e drástica, cumprindo com fidelidade e eficiência seus deveres institucionais, nos termos determinados pela Constituição Federal em vigor! Não é possível que, a esta altura do tempo e do Direito, uma emissora ainda coloque no ar uma pessoa – que, aparentemente goza das faculdades mentais e da simpatia do público – dizendo que “apenas os homossexuais contraem AIDS!”, como fez Marcelo Dourado. O que é isto? Ignorância ou maldade? Conclua-se por uma ou outra hipótese, trata-se, acima de tudo, de preconceito! Disseminação de preconceito!
Por fim, esclareço: falei sobre minha monografia porque quero pô-la a disposição, caso precisem de alguma fonte. Sei que existem muitas, mas, em meu trabalho, cuidei de resumir as principais. Pode facilitar.
Aguardo resposta e providências."
Depois de muito sofrer e refletir, resolvi agir. Pode parecer pouco, porém, preferível um pequeno passo à inércia.
Escrevi esta carta - que segue nas linhas vindouras - ao Ministério Público Federal de São Paulo para que alguma providência seja tomada em combate ao preconceito claramente propagado pela Rede GLOBO.
Quem se identificar com a relevância do tema, por favor, faça o mesmo: www.prr3.mpf.gov.br, em “Acessibilidade” e “Contatos”.
"APELO
Confesso que nunca havia assistido a um Big Brother em toda a minha vida. Em verdade, não gosto e raramente assisto televisão. Motivos à parte – que, do meu ponto de vista, são tão óbvios quanto numerosos – resolvi assistir a este BBB10. Resultado: longe de me proporcionar divertimento, tem me causado mal-estar, angústia e revolta. É impressionante o descompromisso da GLOBO com qualquer valor! Se antes eu desconfiava, agora tenho a mais pura certeza: a emissora visa tão somente à audiência e ao lucro, ainda que, para tanto, tenha que afrontar o Direito e levar ao ar os maiores absurdos, disseminando, inclusive, de forma odiosa e clara, o preconceito.
Eu sou lésbica e me dói ver o resultado dessa ganância descompromissada da GLOBO, o reflexo imediato e patente que essa irresponsabilidade causa na população, sobretudo na parcela menos provida de senso crítico e de estudo (que é bem ampla, diga-se de passagem, nesse nosso país cujos índices de analfabetismo nem precisam ser relembrados).
Nós, os gays, já sofremos preconceito demais! Somos vítimas de um constante e antijurídico assédio social! A todo instante, de forma direta ou indireta, nos é cobrado – inclusive dentro de nossas famílias e de nossas casas, o que é mais absurdo! – que não demonstremos o afeto que possuímos por nossos pares! É-nos exigido que passemos despercebidos, fingindo masculinidade ou feminilidade, a depender do caso! É-nos cobrado que tenhamos que olhar para o lado antes de direcionar um olhar de amor aos nossos companheiros! Enfim, já somos pressionados demais para não sermos quem somos, em plenitude de direitos, em que pese pagarmos os mesmos impostos! Sinceramente, não precisávamos que ninguém – muito menos uma pessoa jurídica com o poder da GLOBO – fortalecesse esse odioso preconceito! Pensei eu – munida dos últimos resquícios de inocência – que a emissora havia colocado três homossexuais assumidos com o objetivo – louvável – de reduzir o preconceito, a ignorância sobre o tema, trazendo esclarecimentos, deixando de mistificar o assunto, desvinculando homossexualidade de promiscuidade, enfim, propagando o respeito, mas, boquiaberta, tenho assistido o inverso e o pior: em horário nobre!
Outro dia, Pedro Bial virou-se para Serginho (que é um dos gays) e, sem qualquer rodeio, indagou: você é ativo ou passivo? E eu, agora, pergunto: onde está o respeito à dignidade? Quem disse que ser gay dá o direito de devassar a intimidade de alguém desta forma? Que tipo de orientação Pedro Bial tem recebido da GLOBO para perguntar isto a um homossexual e não perguntar a um heterossexual se ele gosta mais de sexo anal, oral ou “papai-mamãe”? E não venham me dizer que quem “está na chuva é para se molhar”, que vai para o programa quem quer e está disposto a tudo! Ainda que isto seja fato, não contesto a postura do participante em responder, tampouco em participar. Estou aqui para contestar a postura do apresentador do programa e, consequentemente, da emissora! O que se deseja quando se expõe alguém desta forma? Preservar o respeito a esta pessoa e à sua orientação sexual é que não é! Não é a toa que tenho ouvido relatos de que, alguns grupos, ao atacarem verbal e mesmo fisicamente um homossexual na rua, têm gritado “Gang Dourada”, fazendo clara menção a Marcelo Dourado (que é homofóbico patente, sem meias palavras!)!
Restam, agora, as derradeiras perguntas: ninguém vai fazer nada? Onde andam os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana e da igualdade? Onde anda a máxima de Kant que define a dignidade – no âmbito jurídico e filosófico – como o dever de tratar o ser humano como um fim em si mesmo, jamais como um meio para a satisfação dos interesses de outros, muito menos quando este outro é, “singelamente”, a Rede GLOBO?
Escrevi uma monografia entitulada “Homossexualidade: direito ou defeito?”. No trabalho, trato do tema, primeiro, no âmbito extrajurídico – valendo-me da História, Medicina, Genética, Psicologia e Psicanálise – para, depois, passar ao âmbito jurídico, mais especificamente o Constitucional. Para tanto, analiso 5 (cinco) princípios constitucionais. Os 3 (três) primeiros – igualdade, liberdade e dignidade da pessoa humana – de caráter geral e 2 (dois) outros – pluralidade das entidades familiares e afetividade – específicos do Direito de Família. Paralelamente à análise dos significados e conteúdos dos princípios abordados, busco vislumbrar - e vislumbro! - a homossexualidade como um direito, verificando que ela encontra respaldo constitucional. Feita essa verificação, parto do mundo constitucional para o real, numa tentativa de comparar o juridicamente idealizado com o humanamente concretizado. Desta feita, observo que o preconceito ainda inviabiliza a concretização da justiça quando o tema é homossexualidade. Por fim, dou a resposta à pergunta, título do referido trabalho. Homossexualidade: direito ou defeito? E a resposta mostra-se óbvia: DIREITO! Chego a esta conclusão com base na Ciência e no Direito, longe dos "achismos" e dos argumentos pseudojurídicos, que só encontram terreno fértil na ignorância e na falta de capacidade de "amar o próximo como a si mesmo". Talvez sejam estes os fundamentos que precisam ser expostos através da mídia, do Poder Judiciário, do Ministério Público Federal, enfim, de qualquer um que se disponha a fazer valer a Justiça!
Enfim, só queria registrar minha indignação, minha preocupação e pedir, por favor, que o Ministério Público Federal tome alguma providência jurídica, rápida e drástica, cumprindo com fidelidade e eficiência seus deveres institucionais, nos termos determinados pela Constituição Federal em vigor! Não é possível que, a esta altura do tempo e do Direito, uma emissora ainda coloque no ar uma pessoa – que, aparentemente goza das faculdades mentais e da simpatia do público – dizendo que “apenas os homossexuais contraem AIDS!”, como fez Marcelo Dourado. O que é isto? Ignorância ou maldade? Conclua-se por uma ou outra hipótese, trata-se, acima de tudo, de preconceito! Disseminação de preconceito!
Por fim, esclareço: falei sobre minha monografia porque quero pô-la a disposição, caso precisem de alguma fonte. Sei que existem muitas, mas, em meu trabalho, cuidei de resumir as principais. Pode facilitar.
Aguardo resposta e providências."
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quarta-feira, 3 de março de 2010
MORDAÇA (Poesia)
Nascemos amordaçados
Embora abramos a boca, aos berros, ao sair da barriga da vida
A mordaça circunda o coração
Mas não os lábios
E comprime,
Impede,
Estrangula o que sentimos,
O “eu” que realmente nos anima
E assim,
Com uma mordaça cardíaca,
Imunda,
Espessa,
Apertada,
Crescemos em coma induzido,
Vigiado
O silêncio ao que realmente somos é o pacto
Que, antes de nascermos, o mundo trava conosco
Ainda que à nossa revelia
Nascemos em estado inconsciente de nós
Em latência amarga de amor próprio
Sob a placa de proibição e acesso restrito:
O amor ao outro também é rotulado
E amar o igual ostenta as placas de “impróprio”,
“Anormal”,
“Abominável”,
“Inconcebível”
Carregar estes letreiros é o passaporte,
O vale,
A senha para nos tornamos parte desse mundo
Que possui consciência própria e a única julgada digna
Mas que hoje, sob a lente da inteligência e o crivo da crítica, me enoja
Eu rasguei a mordaça sob a qual sucumbia minha vida
O preço, pago dia a dia
Eu posso!
A moeda é a coragem, não a rebeldia
E a recompensa é um coração que fala
É um coração que bate
É um coração que cita:
“Amai o próximo como a si mesmo”
E não há gênero,
Não há lei,
Não há regra,
Não há farsa,
Não há sexo
Não há mordaça que restrinja um amor genuíno
Eis o segredo que a mordaça inibia
E sob o qual meu coração sempre bateu
Ainda quando em coma induzido,
Vigiado,
Enforcado pelo nó da hipocrisia.
Embora abramos a boca, aos berros, ao sair da barriga da vida
A mordaça circunda o coração
Mas não os lábios
E comprime,
Impede,
Estrangula o que sentimos,
O “eu” que realmente nos anima
E assim,
Com uma mordaça cardíaca,
Imunda,
Espessa,
Apertada,
Crescemos em coma induzido,
Vigiado
O silêncio ao que realmente somos é o pacto
Que, antes de nascermos, o mundo trava conosco
Ainda que à nossa revelia
Nascemos em estado inconsciente de nós
Em latência amarga de amor próprio
Sob a placa de proibição e acesso restrito:
O amor ao outro também é rotulado
E amar o igual ostenta as placas de “impróprio”,
“Anormal”,
“Abominável”,
“Inconcebível”
Carregar estes letreiros é o passaporte,
O vale,
A senha para nos tornamos parte desse mundo
Que possui consciência própria e a única julgada digna
Mas que hoje, sob a lente da inteligência e o crivo da crítica, me enoja
Eu rasguei a mordaça sob a qual sucumbia minha vida
O preço, pago dia a dia
Eu posso!
A moeda é a coragem, não a rebeldia
E a recompensa é um coração que fala
É um coração que bate
É um coração que cita:
“Amai o próximo como a si mesmo”
E não há gênero,
Não há lei,
Não há regra,
Não há farsa,
Não há sexo
Não há mordaça que restrinja um amor genuíno
Eis o segredo que a mordaça inibia
E sob o qual meu coração sempre bateu
Ainda quando em coma induzido,
Vigiado,
Enforcado pelo nó da hipocrisia.
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domingo, 31 de janeiro de 2010
CONSTRUÇÃO (Poesia)
Enquanto o tempo escala a parede feito tinta que ganha cor
A matéria se faz
E se desfaz
E se refaz
Ao nosso redor
É a madeira do sim e do não que pede força física e simbólica:
E ganha forma de armário onde, hoje, se guarda apenas o que importa
E ganha forma de porta, que deixa de fora o desalento da vida
E ganha forma de vida, que exige sentimento robusto, apesar das janelas de vidro
E ganha forma de mesa, sobre a qual o alimento abstrato também se apoia
Nossa casa, mesmo em meio à reforma, já possui guaridas
Onde só o que acrescenta pode entrar após o soar da campainha
E quem não se presta à ordem da faxina, que fique de fora
E quem não vem ao bem deste par, que vá embora
A porta da frente é a serventia deste nosso mundo particular
Onde, dia à dia, com afinco e afeto, transformamos reboco em lar.
A matéria se faz
E se desfaz
E se refaz
Ao nosso redor
É a madeira do sim e do não que pede força física e simbólica:
E ganha forma de armário onde, hoje, se guarda apenas o que importa
E ganha forma de porta, que deixa de fora o desalento da vida
E ganha forma de vida, que exige sentimento robusto, apesar das janelas de vidro
E ganha forma de mesa, sobre a qual o alimento abstrato também se apoia
Nossa casa, mesmo em meio à reforma, já possui guaridas
Onde só o que acrescenta pode entrar após o soar da campainha
E quem não se presta à ordem da faxina, que fique de fora
E quem não vem ao bem deste par, que vá embora
A porta da frente é a serventia deste nosso mundo particular
Onde, dia à dia, com afinco e afeto, transformamos reboco em lar.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
CARTAZES (Poesia)
Vivo numa cidade emoldurada
Pelos muros de concreto armado,
Por sobre a tintura e o recato,
Avisto cartazes retangulares e quadrados,
Figuras tão geométricas e limitadas quanto os que lêem
Atentos e animados
E em cada um destes letreiros,
Verdadeiros espelhos desta cidade,
De maneira mórbida,
Em tons de lilás e rosa,
Jaz de forma patente,
As mais sombrias propagandas e tantas banalidades diferentes
São bandas de pagode, duplas sertanejas
São grifes da moda, garotas propaganda
Fotoshop emprestando a perfeição que passa longe
Longe da miséria que estampa a cara de quem tem fome e sequer sabe ler
São bares, hotéis, boates
São shows de brega, shows de rock
Forro, apelação e desespero, com dançarinas seminuas
Mau gosto estampado,
Vitrines em papel quadrado,
Tudo à venda, tudo à mostra
Nada se esconde, à exceção do que, realmente, importa
São papas que são pops,
Pastores no horário nobre,
A interconectividade
Inclusive entre as operadoras de telefone
E tudo isto cabe num quadrado,
Confeccionado por gigantes esquadros,
Dentro do qual querem nos ver mergulhados,
Afundando, naufragando
E dia-a-dia a piscina se expande
Vivo numa cidade emoldurada
Mas vivo fora, vivo à margem
Dos outdoors que engolem e cospem
Nossa pobre – que se pensa nobre – sociedade.
Pelos muros de concreto armado,
Por sobre a tintura e o recato,
Avisto cartazes retangulares e quadrados,
Figuras tão geométricas e limitadas quanto os que lêem
Atentos e animados
E em cada um destes letreiros,
Verdadeiros espelhos desta cidade,
De maneira mórbida,
Em tons de lilás e rosa,
Jaz de forma patente,
As mais sombrias propagandas e tantas banalidades diferentes
São bandas de pagode, duplas sertanejas
São grifes da moda, garotas propaganda
Fotoshop emprestando a perfeição que passa longe
Longe da miséria que estampa a cara de quem tem fome e sequer sabe ler
São bares, hotéis, boates
São shows de brega, shows de rock
Forro, apelação e desespero, com dançarinas seminuas
Mau gosto estampado,
Vitrines em papel quadrado,
Tudo à venda, tudo à mostra
Nada se esconde, à exceção do que, realmente, importa
São papas que são pops,
Pastores no horário nobre,
A interconectividade
Inclusive entre as operadoras de telefone
E tudo isto cabe num quadrado,
Confeccionado por gigantes esquadros,
Dentro do qual querem nos ver mergulhados,
Afundando, naufragando
E dia-a-dia a piscina se expande
Vivo numa cidade emoldurada
Mas vivo fora, vivo à margem
Dos outdoors que engolem e cospem
Nossa pobre – que se pensa nobre – sociedade.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
ADIANTE (Poesia)
Olho adiante
É mar o que vejo
E sol que fulgura sobre as ondas que chegam
Não mais tenho medo
Tenho sede de nado
E nado adiante
Não retrocedo
Apenas respiro fundo
O ar que insufla as velas
Do navio que me leva:
Eu mesma
Olho adiante
É vida o que vejo
E planos que cintilam sobre tantos montes
Escalo-os,
Venço-os,
Sorrio enquanto avisto o início da escalada
Não canso,
Apenas agradeço
A cada metro vencido de meus campos
Meu norte é o mesmo:
Busco a plenitude
E, depois de tempos de estilhaço,
Dispersa por tantas terras,
Em tantos passos,
Sinto-me o que desde sempre busco:
Inteira
Olho adiante
Sou eu o que vejo
Não mais simples imagem refletida no espelho
Hoje sou dona de tudo o que reflito,
Porque reflito plena,
Em minha inteireza,
Sou dona do mar e dos montes,
Do navio e do cais,
Da coragem e do medo,
Da luz e da ausência de luz
Em mim, mesclam-se o branco e o preto:
Sou o próprio espelho.
É mar o que vejo
E sol que fulgura sobre as ondas que chegam
Não mais tenho medo
Tenho sede de nado
E nado adiante
Não retrocedo
Apenas respiro fundo
O ar que insufla as velas
Do navio que me leva:
Eu mesma
Olho adiante
É vida o que vejo
E planos que cintilam sobre tantos montes
Escalo-os,
Venço-os,
Sorrio enquanto avisto o início da escalada
Não canso,
Apenas agradeço
A cada metro vencido de meus campos
Meu norte é o mesmo:
Busco a plenitude
E, depois de tempos de estilhaço,
Dispersa por tantas terras,
Em tantos passos,
Sinto-me o que desde sempre busco:
Inteira
Olho adiante
Sou eu o que vejo
Não mais simples imagem refletida no espelho
Hoje sou dona de tudo o que reflito,
Porque reflito plena,
Em minha inteireza,
Sou dona do mar e dos montes,
Do navio e do cais,
Da coragem e do medo,
Da luz e da ausência de luz
Em mim, mesclam-se o branco e o preto:
Sou o próprio espelho.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
SHANGRILÁ...
Existem, em minha vida, dois cenários para os quais, ao menos em pensamento, sempre hei de retornar. Em ambos vivi muitos dos melhores dias desta minha existência, que se não é eterna, é singular pela força despendida em cada dia e pela vontade de que seja.
Um destes cenários foi homenageado no conto Aquários, onde empresto à rua onde morei e que beirava a praia de Garça Torta, situada no litoral de Alagoas, algumas personagens forjadas em meu imaginário, em meio à maresia e ao som das ondas que até hoje ouço antes de adormecer, embalando meus sonhos. Quem leu o conto sabe bem do que falo.
Findo o texto, senti desde então que restava pendente uma outra homenagem: eu ainda precisava retornar, pelo menos através das palavras, a um outro recanto tão especial quanto o de Aquários.
Entretanto, alguns anos se passaram e outros tantos contos foram escritos antes de, finalmente, me aventurar neste segundo passeio. Até que, num dia cinza e de chuva – como a maioria durante os quais escrevo –, sentei-me defronte à tela iluminada onde dedilho minhas palavras e, respirando fundo, dei o primeiro passo rumo ao meu segundo e querido cenário, palco de tantos sorrisos, tão ingênuos quanto inteiros.
E, valendo-me das paisagens, andando por dentro e por fora de mim e de lá, fui caminhando, caminhando, caminhando de volta, sem pressa, sem hora, até revisitar todas as minhas memórias e chegar a Shangrilá. O que, a princípio, seria um conto, transmudou-se em livro e é este o título que lhes apresento.
Na última página escrita, o alívio: meu segundo cenário restava finalmente e fielmente descrito. Mas, para minha surpresa, a homenagem tornou-se maior ainda e é isto o que hoje venho contar: a Editora Malagueta publicou meu segundo “passeio” e, graças a isto, posso convidar a todos para trilhar também por Shangrilá.
Sejam bem-vindos.
Marina Porteclis.
Lançamento em Recife: dia 17/09/2009, na Livraria Cultura, às 18h30.
Maiores detalhes: http://www.editoramalagueta.com.br
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