Não quero mais esperar
Chega de agulha suspensa
Baixa o braço da vitrola
Deixa a música tocar
Solta a corda
Que venha a guilhotina
Que rolem cabeças, quem sabe a minha
Que a dor seja logo sentida, intensificada, esquecida, silenciada
Que se calem os gritos
Não quero mais esperar
Aperta o play
Deixa rolar o filme
Com as piores e melhores cenas
Quem levantou, que perca a sequência e o lugar
Fechem a ultima porta
Desçam o ataúde
Joguem o primeiro punhado de terra
As flores hão de chegar
Não quero mais esperar
Vira a mesa e a pagina
A espera prolongada é desperdício de vida
E a vida escorre feito rio
Não se pode represar
Não quero mais esperar
Continuem suas falas
Reformem suas casas
Entreguem as alianças
Escolham o nome da criança
Comprem as passagens
Porque é impossível esperar a viagem e, ao mesmo tempo, viajar
É impossível esperar vida e, ao mesmo tempo, viver
A morte nada mais é do que a vida suspensa no ar
Baixa o braço da vitrola
Aumente o volume
Diminua a demora
Deixa a vida tocar.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
TAÇA DE CARNE (Poesia)
Um sopro de razão me inunda
Faço planos e logo sinto medo
Crio-me taça de cristal: côncava, frágil, funda
Enquanto espero que o acaso não me apanhe de surpresa
A transparência me veste
Enquanto a nudez do que sinto circunda
Inundam-me de vinho
Líquido rubro da razão ausente
Realizo parte dos sonhos,
Ainda que tropegamente
Mas já não temo
Ponho o pé no chão e finalmente percebo:
Nunca há controle, ainda quando se crê nele
Crio-me corpo de pele e sangue
É melhor assim
Fluxo e refluxo
Sagrado e profano
Firme e flácida esperança que voa e pousa e caminhaem mim
Torno-me então taça de carne sobre a mesa
Banquete do qual sou caçadora e presa
A espera do próximo gole para, novamente, tornar-me vazia
Taça de cristal oca e fria
Taça sem vinho,
Corpo sem sangue,
A esperança alçou vôo e não me deixou inteira
Hei de lembrar que razão e sua ausência se entremeiam
Eis o equilíbrio necessário à vida
Antes de sabê-lo, todavia
Anos a fio e com tristeza
Eu bebi a mim mesma
Faço planos e logo sinto medo
Crio-me taça de cristal: côncava, frágil, funda
Enquanto espero que o acaso não me apanhe de surpresa
A transparência me veste
Enquanto a nudez do que sinto circunda
Inundam-me de vinho
Líquido rubro da razão ausente
Realizo parte dos sonhos,
Ainda que tropegamente
Mas já não temo
Ponho o pé no chão e finalmente percebo:
Nunca há controle, ainda quando se crê nele
Crio-me corpo de pele e sangue
É melhor assim
Fluxo e refluxo
Sagrado e profano
Firme e flácida esperança que voa e pousa e caminha
Torno-me
Banquete do qual sou caçadora e presa
A espera do próximo gole para, novamente, tornar-me vazia
Taça de cristal oca e fria
Taça sem vinho,
Corpo sem sangue,
A esperança alçou vôo e não me deixou inteira
Hei de lembrar que razão e sua ausência se entremeiam
Eis o equilíbrio necessário à vida
Antes de sabê-lo, todavia
Anos a fio e com tristeza
Eu bebi a mim mesma
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
GAIVOTAS (Poesia)
Em outra vida
Já fui presa a prédios
Moedas
Ouro
Títulos
Construí meu império
Nunca
Por isso
Na próxima vinda
Se tiver de vir presa
Que seja às gaivotas
Para sobrevoar o mar tranquilo
Vendo o sol se espelhar na água
Em contraponto ao chão
E a cada bater de asas
Enquanto retorno à casa
Me espelhar na imensidão
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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
DECANTAÇÃO
Onde decantam os sonhos?
No ventre da mulher grávida?
No banco de sêmen à espera de inseminação?
Na córnea daquele que nasceu cego?
Na clareira da escuridão?
Na parede que, estática, deseja ser pássaro?
No guindaste que, suspenso, deseja ser chão?
Onde decantam os sonhos?
No quesito que foi anulado?
No coração a ser transplantado?
Na ambulância que corre rumo ao atropelado?
No gabarito que aguarda divulgação?
Onde decantam os sonhos?
Na janela que aguarda ser fechada?
Na moça que, da janela, aguada a carta?
No embrião que teme ser abortado?
Nas cápsulas que aguardam pelo tráfico?
No futuro, no presente ou no passado?
Onde decantam os sonhos?
No Vaticano ou na Nigéria?
Nas cores que querem ser quadro?
Na moldura que quer ganhar tela?
No prato que esfria à mesa?
Na mesa que foge à miséria?
Onde decantam os sonhos?
No mapa, na bússola, na contramão?
Nos sapatos que aguardam passos?
Nos passos que aguardam rumos?
Nos rumos que aguardam pés?
Nos pés que aguardam sapatos?
Onde decantam os sonhos?
Além ou aquém de onde estamos?
Além ou aquém de onde estão?
Garimpando a realidade
Os sonhos decantam em si próprios
Separando o líquido do sólido
O possível do insólito
A espera de quem os sonhem
– não importa quando nem onde –
Com legítima sofreguidão.
No ventre da mulher grávida?
No banco de sêmen à espera de inseminação?
Na córnea daquele que nasceu cego?
Na clareira da escuridão?
Na parede que, estática, deseja ser pássaro?
No guindaste que, suspenso, deseja ser chão?
Onde decantam os sonhos?
No quesito que foi anulado?
No coração a ser transplantado?
Na ambulância que corre rumo ao atropelado?
No gabarito que aguarda divulgação?
Onde decantam os sonhos?
Na janela que aguarda ser fechada?
Na moça que, da janela, aguada a carta?
No embrião que teme ser abortado?
Nas cápsulas que aguardam pelo tráfico?
No futuro, no presente ou no passado?
Onde decantam os sonhos?
No Vaticano ou na Nigéria?
Nas cores que querem ser quadro?
Na moldura que quer ganhar tela?
No prato que esfria à mesa?
Na mesa que foge à miséria?
Onde decantam os sonhos?
No mapa, na bússola, na contramão?
Nos sapatos que aguardam passos?
Nos passos que aguardam rumos?
Nos rumos que aguardam pés?
Nos pés que aguardam sapatos?
Onde decantam os sonhos?
Além ou aquém de onde estamos?
Além ou aquém de onde estão?
Garimpando a realidade
Os sonhos decantam em si próprios
Separando o líquido do sólido
O possível do insólito
A espera de quem os sonhem
– não importa quando nem onde –
Com legítima sofreguidão.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
LIMIAR
O pai toma banho, enquanto escolhe mentalmente a roupa para o enterro do filho
A moça escolhe a fantasia da segunda de carnaval, enquanto prova a de domingo
Um menino come lixo, enquanto espanta os cachorros
Uma menina vomita o café da manhã, pois engordou mais um pouco
A viúva escolhe a frase que irá registrar na coroa de flores
O moço escolhe o buquê que enviará para um de seus amores
O velho, esquálido, sem camisa, puxa a carroça para sustentar a família
O rapaz, vestindo Adidas, puxa ferro na academia
Uma mulher se lança do décimo andar e explode no chão
Um homem se lança de pára-quedas num rasante do avião
Um jovem ganha a vida fincando o machado na fronte dos bois até ouvir o derradeiro mugido, no matadouro
O outro, enriquece ouvindo Beethoven e sentenciando réus no Tribunal com caneta de ouro
O ministro, tomado de câncer, escreve seu testamento
O pescador, dourado de sol, iça velas ao vento
A mendiga, em silêncio e sangrando, suporta o estupro, estanque
A atriz, encoberta por lençóis de cetim, geme e goza, deslizando sobre seu amante
A bordadeira escolhe o ponto para bordar a última manta do natimorto
A modelo escolhe a letra para tatuar o nome do filho em seu corpo
E assim segue a vida,
Oscilando para a morte
Justamente agora,
Num golpe de caos ou de sorte,
Em que lado você pensa estar?
No B ou no A?
Engana-se:
No limiar.
A moça escolhe a fantasia da segunda de carnaval, enquanto prova a de domingo
Um menino come lixo, enquanto espanta os cachorros
Uma menina vomita o café da manhã, pois engordou mais um pouco
A viúva escolhe a frase que irá registrar na coroa de flores
O moço escolhe o buquê que enviará para um de seus amores
O velho, esquálido, sem camisa, puxa a carroça para sustentar a família
O rapaz, vestindo Adidas, puxa ferro na academia
Uma mulher se lança do décimo andar e explode no chão
Um homem se lança de pára-quedas num rasante do avião
Um jovem ganha a vida fincando o machado na fronte dos bois até ouvir o derradeiro mugido, no matadouro
O outro, enriquece ouvindo Beethoven e sentenciando réus no Tribunal com caneta de ouro
O ministro, tomado de câncer, escreve seu testamento
O pescador, dourado de sol, iça velas ao vento
A mendiga, em silêncio e sangrando, suporta o estupro, estanque
A atriz, encoberta por lençóis de cetim, geme e goza, deslizando sobre seu amante
A bordadeira escolhe o ponto para bordar a última manta do natimorto
A modelo escolhe a letra para tatuar o nome do filho em seu corpo
E assim segue a vida,
Oscilando para a morte
Justamente agora,
Num golpe de caos ou de sorte,
Em que lado você pensa estar?
No B ou no A?
Engana-se:
No limiar.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
UM AMOR NASCENTE
Meu amor é água
Que preenche tudo
Cada parte de meu corpo
Outrora árido
Aguando flores
Florescendo vales
Derrubando muros
Meu amor é água
Que me invade e me represa
Que ora me ergue, inteira
Minando o centro de meu mundo
Que ora me deita, insone
À beira de mim mesma
Meu amor é água
Que dá a sede e sacia
Que mata o desejo e renasce
Sempre o mesmo e outro
Meu amor é água,
Mas também é fogo.
Que preenche tudo
Cada parte de meu corpo
Outrora árido
Aguando flores
Florescendo vales
Derrubando muros
Meu amor é água
Que me invade e me represa
Que ora me ergue, inteira
Minando o centro de meu mundo
Que ora me deita, insone
À beira de mim mesma
Meu amor é água
Que dá a sede e sacia
Que mata o desejo e renasce
Sempre o mesmo e outro
Meu amor é água,
Mas também é fogo.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
DOR DE CRESCIMENTO
“Dor de crescimento”. Era este o diagnóstico que, quando criança, eu escutava no meio da madrugada sempre que acordava atordoada de dor no pé e mancava até o quarto de minha mãe, buscando ser salva. Desde aquela época, eu não queria apenas a explicação para aquele mal súbito que me acometia: queria a cura, queria vencer a noite e ganhar, sem dor, o dia. E, depois de muitas horas choramingando, a cura finalmente vinha. Minha mãe massageava meu pé com uma pomada que dizia ser “mágica” e, na sequência do mimo, o aquecia com uma meia de lã, sobre a qual deitava uma bolsa de água quente. Só então eu adormecia.
Mas o tempo foi passando, eu cresci – meu pé também – e a dor, vez por outra, ainda me visitava. Nas madrugadas, já longe de minha mãe – afastadas que estávamos pelos ideais e pelos mapas –, sempre que eu acordava com dor, era dela que eu me lembrava. E, no eco da memória, o diagnóstico novamente se fazia: “dor de crescimento”. Será que era mentira? Afinal, eu já havia crescido e a dor persistia, insolente, insone, órfã e má, a me molestar.
Até que, sem perceber, no correr de muito tempo, a dor misteriosamente desapareceu. “Finalmente – pensei comigo – eu estava completa”, não havia mais nada dentro de mim a se acomodar.
Porém, após algum tempo de trégua, noite passada a dor voltou. E eu a senti como nunca antes: não apenas no pé. Doeu-me o corpo inteiro! Assustada, despertei e andei trôpega pela casa em busca da “pomada mágica” que, em verdade, nunca me curou de nada! Foi quando a grande indagação se fez tão inevitável quanto o choro: o que, de mim, ainda haveria por dentro que pedisse espaço, que se esticasse na planta de meu pé, irradiando por minha perna e tomando meu corpo inteiro, feito bastão de ferro com o qual se soca o couro de uma sela, tentando moldá-lo de acordo com o cavalo? Eu não sabia. Não sabia para onde me ampliar. Afinal, o mundo já não me cabe como sou, ainda quando busco me resumir, ainda quando tento me adequar, ainda quando sucumbo ao assédio social sob o qual nos testam o tempo todo! Como haveria de me caber se eu me deixasse ser completa e não sucumbisse mais? Como haveria de me caber se eu fosse maior do que esta sociedade hipócrita me permite ser, em patente vantagem ao exército deplorável de iguais? Foi quando, tonta de dor, constatei: não sou eu, ampliada e verdadeira, que não caibo neste mundo! É o mundo, estreito e mentiroso, que dentro de mim já não cabe mais.
Amanheci sem dor, mas com a certeza de que ela irá voltar, afinal, exorcizar-se do mundo é tarefa para poucos e saber disto é o que dói mais.
Mas o tempo foi passando, eu cresci – meu pé também – e a dor, vez por outra, ainda me visitava. Nas madrugadas, já longe de minha mãe – afastadas que estávamos pelos ideais e pelos mapas –, sempre que eu acordava com dor, era dela que eu me lembrava. E, no eco da memória, o diagnóstico novamente se fazia: “dor de crescimento”. Será que era mentira? Afinal, eu já havia crescido e a dor persistia, insolente, insone, órfã e má, a me molestar.
Até que, sem perceber, no correr de muito tempo, a dor misteriosamente desapareceu. “Finalmente – pensei comigo – eu estava completa”, não havia mais nada dentro de mim a se acomodar.
Porém, após algum tempo de trégua, noite passada a dor voltou. E eu a senti como nunca antes: não apenas no pé. Doeu-me o corpo inteiro! Assustada, despertei e andei trôpega pela casa em busca da “pomada mágica” que, em verdade, nunca me curou de nada! Foi quando a grande indagação se fez tão inevitável quanto o choro: o que, de mim, ainda haveria por dentro que pedisse espaço, que se esticasse na planta de meu pé, irradiando por minha perna e tomando meu corpo inteiro, feito bastão de ferro com o qual se soca o couro de uma sela, tentando moldá-lo de acordo com o cavalo? Eu não sabia. Não sabia para onde me ampliar. Afinal, o mundo já não me cabe como sou, ainda quando busco me resumir, ainda quando tento me adequar, ainda quando sucumbo ao assédio social sob o qual nos testam o tempo todo! Como haveria de me caber se eu me deixasse ser completa e não sucumbisse mais? Como haveria de me caber se eu fosse maior do que esta sociedade hipócrita me permite ser, em patente vantagem ao exército deplorável de iguais? Foi quando, tonta de dor, constatei: não sou eu, ampliada e verdadeira, que não caibo neste mundo! É o mundo, estreito e mentiroso, que dentro de mim já não cabe mais.
Amanheci sem dor, mas com a certeza de que ela irá voltar, afinal, exorcizar-se do mundo é tarefa para poucos e saber disto é o que dói mais.
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